Bate-papo com Érica de Paula: “nascimento tornou-se uma indústria”

bate-papo com Érica de Paula - crédito - Bárbara Bastos

A doula Érica de Paula pode ser comparada a um divisor de águas na reflexão sobre o parto humanizado no Brasil. Levantou com intensidade do debate sobre o excesso de cesarianas no Brasil com o documentário Renascimento do Parto (2013) e avisa: “mulheres empoderadas e informadas são difíceis de serem manipuladas”. Tivemos um bate-papo com Érica de Paula breve e marcante.

O documentário, dirigido por Eduardo Chauvet, sugere uma reflexão séria sobre a maneira como a cesariana é o argumento final para o nascimento no Brasil. Segundo o próprio Ministério da Saúde, até 2016, 55,5% dos nascimentos no País ocorreram por cesariana. Aliada à frieza dos números, a realidade ainda é de cirurgias desnecessárias (na maioria das vezes) e uma luta desigual entre mães e famílias contra sistema de saúde pelo direito ao parto normal.

Ao Clube da Maternidade, de maneira didática, ela estaca a revisão da conduta de profissionais e a mudança da dinâmica hospitalar. O caminho para a mudança ainda é longo, mas ela as mulheres estão mais conscientes dos próprios direitos.

Não sabe o como as doulas trabalham? Veja tudo aqui.

 



 

Confira o bate-papo com Érica de Paula:

Clube da Maternidade – Existe uma espécie de antes e depois do seu trabalho. Doulas de todo o Brasil têm você como inspiração e seus conselhos e dicas estão presentes na maioria dos blogs e páginas nas redes sociais.
Está mais fácil falar sobre o parto natural? Ele está, de fato, sendo encarado como algo natural?

Érica de Paula – Sem dúvida. O diálogo está mais aberto. Nos últimos anos, a mídia esteve bastante interessada no tema parto normal, parto humanizado, violência obstétrica e outros assuntos correlatos.

Houve um aumento da demanda das mulheres, uma maior conscientização da população em geral, da própria legislação (projetos de lei, portarias do ministério da saúde, etc) e resoluções das agências reguladoras e conselhos de saúde, que passaram a ter como objetivo promover uma melhor assistência e reduzir o índice de cesarianas desnecessárias no país.

Isso é resultado do trabalho em conjunto de todo o movimento de humanização do parto no Brasil, que dissemina incessantemente informações de qualidade e baseadas em evidências, e da pressão realizada pelas próprias mulheres para terem seus direitos garantidos.

Você sabia que a circular de cordão não é um indicativo de cesárea?

“Profissionais estão acostumados a indicar cesáreas”

Clube da Maternidade – Você consegue perceber a reação da classe médica? Há resistência à mudança de paradigmas que tanto embasaram a “necessidade” da cirurgia como via de parto?

Érica de Paula – Há desde reações positivas de profissionais que optaram por revisar suas condutas (seja por filosofia, seja pela demanda do mercado) a reações extremamente negativas. O nascimento se tornou uma indústria. Mexer nesse sistema causa um verdadeiro incômodo em boa parte dos profissionais que haviam se acostumado a indicar cesarianas absurdas e contar com a falta de conhecimento e questionamento das suas pacientes.

Hoje, as mulheres têm acesso à informação e evidências científicas de qualidade ao alcance de um clique. Portanto, está muito mais difícil indicar cesarianas sem real necessidade para as mulheres que gostariam de passar pela experiência do parto normal.

O trabalho das doulas, ativistas, grupos de mães, blogs específicos e páginas nas redes sociais democratizou o acesso à informação. Criou uma geração de mulheres empoderadas e consequentemente mais difíceis de serem manipuladas.

Leia nosso artigo sobre doulas voluntárias.

Renascimento do Parto

Clube da Maternidade – Quais foram os efeitos do documentário “O Renascimento do Parto” tanto na rede pública como na rede privada de saúde? Qual foi e qual é o feedback recebido?

Érica de Paula – Isso é algo muito difícil de ser mensurado. Desde o lançamento do documentário, o diálogo foi ampliado entre as usuárias tanto da rede pública (onde se concentra o maior índice de violência obstétrica), quanto da rede privada (onde se concentra o maior índice de cesarianas).

As mulheres estão mais conscientes dos seus direitos na hora do parto, das verdadeiras indicações de cesariana, das condutas que configuram violência obstétrica, levam planos de parto, exigem a presença dos seus acompanhantes e de suas doulas.

Tudo isso acaba mudando a dinâmica hospitalar – acostumada a uma linha de produção de nascimentos marcados – e obrigando que se adaptem a uma nova realidade.

Recebemos centenas de relatos de mulheres que após assistirem ao filme resolveram mudar de médico, buscar equipes humanizadas, ou que anteriormente pensavam em fazer uma cesariana e mudaram de ideia, desejando passar pela experiência de um parto normal.

Clube da Maternidade – Há possibilidade de haver outro trabalho como esse? Você estuda isso?

Érica de Paula – O filme está em fase de finalização das continuações 2 e 3 (com a direção do Eduardo Chauvet). Eu, particularmente, estou me dedicando a outros projetos envolvendo livros, cursos e workshops na área.

Democratização da oferta de doulas

Clube da Maternidade – As doulas estão mais presentes, mas ainda não são tão populares. Como democratizar a oferta desse tipo de trabalho no atendimento aos partos? O que ainda deve mudar nas redes pública e privada?

Érica de Paula – A presença de acompanhantes femininas durante o trabalho de parto sempre ocorreu na história da humanidade, mas o trabalho das doulas e o reconhecimento destas como profissionais é algo recente!
Embora ainda não seja uma profissão regulamentada (com conselho, código de ética, etc), a aceitação está cada vez maior, tanto entre as mulheres, quanto entre os profissionais (obstetras, enfermeiras, pediatras, anestesistas) e hospitais.

O Ministério da Saúde apóia expressamente que a mulher tenha uma doula durante o trabalho de parto e em algumas cidades já existe a Lei da Doula, que garante o direito da mulher ser acompanhada por uma doula independente do acompanhante de sua escolha (direito também já garantido por lei).

Atualmente, existem iniciativas para doulas voluntárias no SUS, o que facilitará o acesso das mulheres que não possuem condições financeiras de contratar uma doula particular.

Há estados que têm leis garantindo a doula pelo SUS.

Clube da Maternidade – Agora sobre a acupuntura. Quais são as indicações e os benefícios para as mulheres grávidas?

Érica de Paula – A acupuntura pode ser utilizada na gestação desde o primeiro momento, para prevenir aborto espontâneo e descolamento de placenta. Também pode ser usada para tratar náuseas e vômitos, sonolência, dores, edema, problemas gástricos e intestinais e qualquer outro desconforto que a gestante sentir, com o benefício de não possuir nenhum efeito colateral. Também existem protocolos específicos para virar o bebê de posição, estimular o trabalho de parto, etc.

Confira abaixo o vídeo promocional de “O Renascimento do Parto“.

 

Quer conhecer mais sobre o trabalho da Érica de Paula? Acesse aqui e saiba mais.

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Sandra Luz

A Sandra é mãe de dois meninos. Também é jornalista formada pela UFMS, com especialização em Saúde. Foi repórter e editora nos setores de cotidiano e economia. Tenta, todos os dias, aprender um pouco sobre conteúdos digitais. Mora no Porto, em Portugal, onde realiza o doutoramento em Ciências da Informação pela Universidade Fernando Pessoa.